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Agosto em três mandamentos apenas

por Duarte Baltazar, em 17.08.16

 

Não dirás «na Quarteira».

 

Não coçarás a cabeça do próximo com a unha do dedo grande.

 

Não te servirás dos lavadores de pés para ensaboar as costas, os filhos e a sogra. 

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publicado às 18:34

Não à discriminação, dizem

por Duarte Baltazar, em 01.08.16

Gosto de viver no tempo e no lugar em que uma mulher pode candidatar-se à chefia do estado e ser avaliada, como se quer em política, pelo que diz e faz. Gosto que isso tenha sido possível também com um negro, um judeu e um filho de imigrantes. Gostaria que tivesse acontecido há mais tempo e em todos os lugares do mundo. É por isso que não compreendo os que, em nome da igualdade de género, apoiam Hillary Clinton 'no matter what' por ser mulher. O obscurantismo de Trump merece uma resposta social digna de século XXI, é certo, mas não me parece que a discriminação positiva seja o caminho. 

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publicado às 18:21

Ficar

por Duarte Baltazar, em 24.06.16

Em Santa Bárbara de Nexe, os montes vêem a Ria Formosa. Talvez essa feliz constante dos dias, que os farenses nem lembram, tenha levado tantos estrangeiros a construir as suas casas no Barrocal. Este intervalo entre a praia e a serra -- o Barrocal -- não se repete em lado nenhum do mundo, por causa das rochas, do cão e de certas plantas. É lá que está o meu Algarve da seiva de figo com perfume de alfarroba -- o meu e o de Julie, que há 14 anos serve o único full english breakfast do sítio. Hoje acordou em choque. Julie teme, e daí não teme assim tanto, pelo próximo ano em Portugal. É que, como ela, dezenas de milhares de britânicos trocaram o smog pelas açoteias ao sol, mas há os que receiam não poder fazê-lo na reforma. De um lado, a libra, as pensões, os regimes de residência. Do outro, a crença remota de que alianças antigas salvem momentos de crise. «We're lazy about learning portuguese», não por desprezo, mas porque, realmente, qualquer agricultor de sequeiro com a quarta classe sabe cuspir uns palavrões em inglês. Julie garante haver «bigger shames» entre os seus britânicos mais chegados, que há gente com 30 anos disto que só diz bom dia e obrigado. «But I understand everything and so do the people who come here», sejam portugueses, holandeses, as indianas que imitam animais no restaurante ou a alemã que vende roupa em segunda mão numa loja ao pé da igreja. E é assim que às Julies se gritam Júlias e há Louises que são Luísas. Un pouco, se o café é curto.

 

Babel não levou a melhor em Santa Bárbara de Nexe. Espero que o Brexit também não. 

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publicado às 18:39

Falácia da identidade

por Duarte Baltazar, em 20.06.16

SE

discordar da Comissão Europeia = ser anti-europeu

 

LOGO

discordar do PR OU do PM OU das resoluções da AR = ser anti-português?

 

Ajudem-me ou ainda descubro que sou, sei lá, antártico. 

 

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publicado às 17:30

De tudo e mais alguma coisa

por Duarte Baltazar, em 29.01.16

No número 31 do Largo de São Pedro, em Faro, a utilidade é uma coisa relativa. «Esta ponta aqui é para lhes bater quando se portam mal. Mas eles têm a pele muito espessa, não lhes dói muito». Falamos de um objecto de bronze que serve para conduzir elefantes. É suposto passar de pais para filhos, mas o Sr. Mário Gast conseguiu interromper a herança do Laos e trazer a peça para Portugal. De resto, foi o desemprego que o levou a abrir a Loja dos Objectos Inúteis. De onde vem o nome? «De uma loja que nós encontrámos no México e que se chamava assim. La Tienda de los Objetos Inutiles». Vem também do Hugo Pratt, que, para além das patilhas de Corto Maltese, inventou O Desejo de Ser Inútil. Não sei se esse é o desejo da loja, mas aqui o desperdício de uns pode ser a relíquia de outros. O senhor sisudo, por exemplo, procura uma caixinha de música para oferecer à mulher. Já só há das chinesas, tão especiais como a lata de Coca-Cola que repousa ao lado, mas alguma «há-de se arranjar» -- palavra de coleccionador. Afinal, quem conseguiu soprar o pó de 1640 e resgatar uma escritura do Santo Ofício de um palacete qualquer, para depois a vender dentro de uma mica de plástico, consegue tudo. É que a loja é um corredor espaço-tempo, de Faro para o mundo e vice-versa. Isso porque muito do que está aqui se confunde com a história dos Gast e as suas origens na Holanda, mas, sobretudo, porque o resto é a geografia das famílias farenses e dos apertos económicos que trazem tantas pessoas à loja. Todas buscam uma última morada para os seus objectos. E, apesar da crise ter empanturrado o estaminé, a máxima da casa é evitar dizer não. Mesmo que seja uma inutilidade. 

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publicado às 15:13

O charme da raposa

por Duarte Baltazar, em 18.01.16

Primeiro, a passerelle. Comenta-se o porte, a roupa, o franzir das sobrancelhas, a espontaneidade do sorriso, o carisma do cônjuge, a graciocidade dos filhos, a admirável destreza de olhar a plateia e, ao mesmo tempo, ler o discurso sentido que o assessor escreveu. Porque os olhos também comem, ficam por aqui dois terços do eleitorado -- os visuais.

 

Depois, o passeio no parque. O beijo no bebé, o abraço à peixeira, a minoria esquecida que é lembrada, a proximidade física aos problemas reais que justificam a política. Um sexto dos portugueses -- os tácteis -- já sabe em quem votar. 

 

O restante sexto avança, de mãos dadas com analistas e comentadores, para o xadrez. Agora é a doer. Onde estava e o que disse no dia 36 de Março de 1987 da parte da tarde? Esquerda, direita, extremo-baixo ou centro-cima? Não esquecer a experiência e a estabilidade políticas (o que são e para que servem a estabilidade e a experiência políticas?). E os gráficos aparecem: candidato 'x' conquista o sector albicastrense que almoça frango assado, mas também quer o voto dos campeões de bruços, mais um terço do eleitorado que fuma Chesterfield de mentol. Um dozeavos dos eleitores -- os numéricos e os verbais -- fecha para balanço até às urnas. 

 

Para alegria póstuma dos sofistas clássicos, a retórica vence a argumentação. Pelo menos em Portugal, pelo menos hoje. Já não me irrita que os políticos usem e abusem das falácias, mas nunca vou entender o cidadão comum que, em consciência, escolhe o seu candidato pela estratégia. «Engana-me que eu gosto»?

 

Aos restantes 8,3 por cento dos portugueses maiores de idade, que o conteúdo prevaleça sobre a forma. 

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publicado às 17:17

Máxima da relevância

por Duarte Baltazar, em 11.01.16

Só mais uma vez.

 

A pergunta «tudo bem contigo?», dita de passagem no corredor de um centro comercial, não é para ser respondida à letra. É apenas a forma verbal de acenar com a mão ou levantar o polegar. Ninguém espera que o outro desenvolva sobre como tem passado os seus dias, porque há geralmente um garrafão de água a bloquear conversas de chacha. Mas, para os meus pais e os amigos deles, «tudo bem contigo?» é um bilhete para falar sobre impostos, Benfica, gatos e, sei lá, Descartes. 

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publicado às 15:41

Let's dance in space oddity, my China girl

por Duarte Baltazar, em 11.01.16

Sortudos os que têm uma banda sonora dos seus momentos e lugares. Obrigado, David Bowie, por fazeres parte da minha. 

 

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publicado às 12:43

Ângelos

por Duarte Baltazar, em 08.01.16

Aos 16 anos, o Ângelo queria ser igual aos outros, sentir coisas próprias da idade e impressionar uma rapariga. Gostava de ter amigos no Hi5.

Pintou as paredes da escola durante a noite e foi detido pela polícia. 

 

Aos 18 anos, o Ângelo queria ser diferente dos outros, entrou para a faculdade e almejava uma profissão. Começou a interessar-se pelos filmes de Godard. 

Foi apresentado ao juiz.

 

Aos 24 anos, o Ângelo trabalha como freelancer e paga as suas contas. É, no possível do momento, um homem emancipado. 

Começou a cumprir pena de trabalho comunitário. 

 

Quantas adolescências cabem na justiça portuguesa?

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publicado às 17:47

A actualidade era ali

por Duarte Baltazar, em 07.01.16

Complemento oblíquo, modificador do nome restritivo, modificador do nome apositivo. Já tinha ouvido falar deles mas só hoje fomos formalmente apresentados. E tanta coisa mudou na terra da Gramática. Foram-se os complementos circunstanciais. As orações subordinadas insuburdinaram-se e algumas exigem ser chamadas de adjectivas relativas explicativas. Os numerais trabalham para os quantificadores, que roubaram palavras aos determinantes, que os há nulos. E o Condicional, coitado, já não é modo -- vive dependente do Indicativo e dá pelo nome de Futuro do Pretérito. 

 

Bem sei que nada disto é de ontem. A minha professora preparou-nos em 2007 para uma mudança que ia de Portugal ao Egipto, mas, anos depois do exílio na faculdade (onde o Lindley Cunha nos iludiu com a Nova Gramática do Português que dizia ser Contemporâneo), eis que volto a dar explicações à maralha do ensino secundário.

 

Por este andar, ainda acabo a saber que o Padre António Vieira escrevia teatro. 

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publicado às 16:26


Este indigente que vos escreve

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